AUTOR: Pedro Branco | Redação
O mundo do futebol brasileiro recebeu, mais cedo, a notícia da demissão do treinador Tiago Nunes do Botafogo. Conforme noticiado aqui mesmo, em reportagem da TIESA News, a decisão ocorreu devido à insatisfação dos dirigentes do clube com os resultados recentes do técnico, cujo futebol não conseguiu convencer a torcida e foi marcado por polêmicas declarações e atitudes. Recentemente, Tiago chegou a admitir, em entrevista coletiva, que jogadores do elenco pediram por sequências fora do clube e foi expulso no jogo válido pela Pré-Libertadores contra o Aurora, após provocar o treinador adversário.
A decisão do dono, John Textor, parece ter embasamento nos últimos resultados do time em campo. Sob o comando de Tiago Nunes, a torcida botafoguense viu o time ficar fora da zona de classificação direta para a Libertadores no ano passado, além de sofrer derrotas recentes para Vasco e Flamengo no Campeonato Carioca e um frustrante empate em 1×1 com o Aurora, da Bolívia, em um jogo no qual o Botafogo não conseguiu exercer sua qualidade técnica superior de maneira efetiva. Apesar disso, é superficial olhar para a situação do Botafogo e pensar que o principal problema é o treinador. Não é.
O Botafogo iniciou o Campeonato Brasileiro de 2023 de maneira brilhante. Comandado inicialmente pelo português Luís Castro, posteriormente substituído interinamente por Cláudio Caçapa e, em seguida, por Bruno Lage, o time, que não era cotado como um dos favoritos ao título, chegou ao final da 19ª rodada com 13 pontos de vantagem para o vice-líder e fez a melhor campanha da história do primeiro turno do campeonato. A equipe, que não era a melhor em termos de qualidade individual, obteve grande sucesso devido a uma esmagadora e observável preparação física que, somada a um fator casa determinante, transformou jogadores como Tiquinho Soares, Adryelson e Lucas Perri em sensações do futebol brasileiro.
Apesar disso, o substituto Bruno Lage não convenceu a torcida nem os jogadores. Sua tentativa brusca de adaptar rapidamente o estilo de jogo da equipe à sua vontade acabou prejudicando o rendimento do time, que amargou resultados duros, como a derrota por 2×1 para o Flamengo dentro de casa. Lage acabou demitido após a controversa decisão de barrar o artilheiro do time, Tiquinho Soares, de um jogo contra o Goiás. Nessa partida, optou por Diego Costa, que não entrou bem e acabou dando lugar ao próprio Tiquinho, responsável pelo gol do empate em 1×1.
Os jogadores pleitearam junto à diretoria a permanência do auxiliar técnico e treinador interino Lúcio Flávio, e o pedido foi atendido. O time pareceu responder bem de início, emendando vitórias contra Fluminense e América-MG, mas logo em seguida protagonizou uma das partidas mais inacreditáveis do futebol brasileiro nos últimos meses. Em um confronto direto contra o vice-líder Palmeiras, em um Nilton Santos lotado, o Botafogo abriu 3×0 no primeiro tempo, em uma atuação extremamente convincente e avassaladora. No segundo tempo, Endrick descontou logo no início para o Palmeiras, que, mesmo assim, não parecia ter forças para reverter o resultado. No entanto, o artilheiro Tiquinho Soares desperdiçou uma cobrança de pênalti na reta final da partida, e a equipe alvinegra, desfalcada após a expulsão de Adryelson, viu o Palmeiras virar o jogo.
Desde então, o Botafogo tem protagonizado eventos bizarros em suas partidas. Nas últimas 20 partidas, sofreu 10 gols nos minutos finais, resultando em empates ou viradas. Trata-se de um claro sinal de desgaste emocional do grupo, que ainda conseguiu realizar boas partidas, mas foi acometido pelo fantasma do gol adversário depois dos 40 minutos. Foi nesse contexto que Tiago Nunes assumiu o comando.
Em uma análise ponderada de um telespectador assíduo de futebol, é evidente a pesada carga psicológica que atua sobre os jogadores do atual elenco do Glorioso. É interessante observar as expressões corporais dos atletas, na maioria das vezes com as mãos na cintura e semblante de decepção ou angústia. O descontrole que o psicológico danificado exerce sobre a qualidade do futebol individual é evidente e comprovado, como destacou a Dra. Ailane Araújo, especialista em saúde mental, em entrevista ao GloboEsporte.com. Nela, a doutora afirma que “a saúde em si se dá pelo estado completo de bem-estar físico, mental e espiritual. Quando um não vai bem, o outro também é abalado.”
Definitivamente, não se trata de “achismo” apontar o psicológico dos atletas como uma das causas da má fase do alvinegro. Conforme noticiado no início da semana, o próprio Tiago Nunes admitiu, em entrevista coletiva, que muitos jogadores estavam pedindo para ter uma sequência fora do clube a fim de se livrar de uma carga emocional tão forte. Ainda segundo ele, havia a percepção de atletas no limite técnico, físico e mental.
Dessa forma, entendo que a demissão do técnico é uma resposta imediata à insatisfação do torcedor, mas não deve ser vista como um remédio a longo prazo. É necessário rechaçar a mentalidade predominante na maioria dos jogadores, e isso se faz com um trabalho de assistência psicológica especializada, algo que, infelizmente, ainda é um tabu no futebol. Se a equipe está contaminada com uma mentalidade perdedora, não há treinador ou projeto capaz de levá-la à glória. Os jogadores são a espinha dorsal de um time de futebol, pois são eles que entram em campo.
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