AUTOR: Giovanni Ghioldi | Redação


A genial sátira de Cord Jefferson é um dos principais candidatos em categorias acirradas na premiação que ocorre neste domingo (dia 10).

American Fiction é um filme satírico que aborda a forma como a população preta americana é retratada na ficção. A trama acompanha o experiente escritor Thelonious “Monk” Ellison, que enfrenta a desvalorização de suas obras literárias por não serem consideradas “pretas” o suficiente.

O roteiro critica habilmente como a mídia branca busca apenas histórias que exploram o sofrimento da população preta, diminuindo aquelas que não se enquadram nos moldes de contos “crus, brutais e corajosos”. Esse comportamento incomoda profundamente Monk, especialmente ao ver outra escritora preta, Sintara Golden (Issa Rae), capitalizando em cima da demanda da indústria por esse tipo de narrativa. Em resposta, Monk escreve uma paródia que reúne todos os elementos considerados atraentes pelo mercado, enquanto lida com uma série de dramas familiares maravilhosamente escritos e atuados ao longo da trama.

Um dos aspectos mais marcantes do filme é a forma como Monk lida com o fato de sua sátira ter se tornado seu maior sucesso. O que era para ser uma crítica à indústria se transforma em mais uma prova de como a cultura preta tem sido reduzida a um emaranhado de violência sem sentido, sem espaço para explorar sua complexidade e grandeza. Destaca-se, nesse contexto, a cena em que Monk expressa seu total desgosto pelo livro de Sintara, culminando em um confronto entre os dois que, infelizmente, acaba subutilizado e não tão impactante quanto poderia ser.

Os aspectos técnicos do filme são um de seus grandes trunfos. A trilha sonora, a fotografia e o design de som contribuem para uma imersão profunda nos sentimentos retratados, tornando a experiência ainda mais engajante e emotiva. Um destaque especial vai para a atuação de Sterling K. Brown, que interpreta Clifford Ellison. Sua performance é tão intensa que, em diversos momentos, chega a roubar o protagonismo, explorando com maestria as complexidades de seu personagem.

Apesar de ser um filme interessante, profundo e muito bem produzido, seu desfecho deixa a desejar. O final abrupto ignora e encerra tramas sem o devido desenvolvimento, tornando a conclusão desnecessariamente complexa e confusa. O principal problema do longa pode ser resumido por uma reflexão apresentada na própria narrativa: “Potencial é o que as pessoas veem quando acham que o que está na frente delas não é bom o suficiente”. E essa frase descreve perfeitamente American Fiction—um filme de enorme potencial, mas que não o realiza plenamente. A estrutura fraca do desfecho acaba por manchar uma obra que, até então, se desenhava como quase perfeita.

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