AUTOR: Matheus Sartori | Redação


Com a bola no pé, o garoto é incontestável. Versátil, ágil, habilidoso, forte e inteligente. Como já disse Vanderlei Luxemburgo, Endrick tem todas as valências para ser o melhor do mundo. Ainda assim, não consigo evitar um gosto amargo ao pensar no que ele poderia representar para o futebol brasileiro caso o mercado seguisse uma lógica um pouco mais conservadora.

Para ser sincero, nem sempre pensei dessa forma. Mas certa vez assisti a um episódio do podcast Podpah, de Igão e Mítico, com a participação de Cafu. Durante a conversa, o capitão do penta fez uma observação que ficou martelando na minha cabeça:

“Nós não temos ídolos unânimes no futebol brasileiro!”

E, analisando friamente, ele tem razão. O último que tivemos foi Neymar, um jogador que todos, independentemente do time, admiravam, temiam e paravam para assistir. O camisa 11 do Santos encantava com um futebol ousado e alegre, uma verdadeira anomalia de talento e personalidade. Isso já faz mais de dez anos.

Hoje, a discussão sobre a saída precoce de jogadores para a Europa já virou lugar-comum. No caso de Endrick, no entanto, esse problema se torna ainda mais grave.

Lembro bem do dia 1º de novembro de 2023, no Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro. Meu pai, André, assistia ao jogo ao meu lado. Como bom palmeirense, estava desesperançoso e irritado. O placar de 3 a 0 era vergonhoso e desolador. Mas tudo mudou quando Endrick pegou a bola, superou cinco adversários e estufou as redes.

Depois da explosão de euforia, meu pai virou para mim com lágrimas nos olhos e disse: “O garoto me lembra ele (o Pelé).”

Naquele instante, um turbilhão de pensamentos tomou conta de mim. Para alguém com mais de 50 anos fazer esse tipo de comparação com um jogador contemporâneo, é porque há algo realmente especial ali.

Isso me fez lembrar de uma brincadeira que sempre faço com ele. Sempre que há uma falta próxima da grande área, pergunto: “E o Zico daí, pai?” Ele me responde com um riso misto de deboche e nostalgia: “Daí ele perguntava para o goleiro onde queria a bola!”

Quando criança, ele me contou que chegou a comprar uma camisa do Flamengo apenas porque era “a camisa do Zico”. As pessoas insistiam: “Mas você é palmeirense e usa camisa do Mengão?” E ele, irredutível, retrucava: “Não é do Flamengo, é do Zico.”

Essa é a dimensão de um ídolo. E é por isso que me incomoda tanto ver Endrick partindo tão cedo. Será que ainda teremos ídolos unânimes no futebol brasileiro? Ou nos resta apenas a nostalgia das grandes figuras que marcaram gerações?

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