AUTOR: Pedro Branco | Redação


1965 foi um ano marcante na história da humanidade. Pela primeira vez, os Estados Unidos desembarcavam tropas terrestres no Vietnã, contribuindo para a escalada do violento conflito no Oriente. No Brasil, foi editado o Ato Institucional nº 2, que conferia ao Presidente da República o direito de cassar mandatos e suspender direitos políticos. O mundo atravessava um dos períodos de maior tensão da Guerra Fria. Naturalmente, as artes – sobretudo a música –, como reflexo fidedigno da sociedade, acompanhavam genuinamente as mudanças sociais e as tensões geopolíticas sentidas ao redor do globo.

Foi o ano de lançamento do emblemático álbum Highway 61 Revisited, de Bob Dylan, artista considerado o símbolo de uma nova geração irreverente, politizada e engajada. Like a Rolling Stone foi um tremendo e absoluto sucesso. Em terras tupiniquins, a rebeldia era personificada pelo jovem cantor Roberto Carlos, que escandalizava a sociedade conservadora mandando tudo para o inferno. Mas, mais do que isso, 1965 foi o principal divisor de águas na carreira da indiscutível maior banda da história da música internacional. Em dezembro daquele ano, chegava às lojas Rubber Soul, o disco que transformou eternamente Lennon, McCartney, Harrison e Starr. Agora, seis décadas depois, seu impacto permanece vivo e relevante.

John Lennon costumava se referir ao álbum como “o álbum da maconha”. Apesar de não poder atestar empiricamente os efeitos dessa droga no repertório musical pessoal, dado a ausência de tal costume, este autor pode, por meio de bibliografia, entrevistas e até mesmo análise musical, reconhecer nitidamente os frutos da experiência dos Beatles com a maconha em sua discografia posterior. Para isso, é preciso citar o épico encontro com o já citado Bob Dylan.

Foi na mística noite de 28 de agosto de 1964 que os Beatles conheceram não só Bob Dylan, mas seus “novos eus”. Dylan, à época, poderia ser facilmente descrito como o perfeito contraste dos quatro rapazes cabeludos, arrumados e sorridentes. Era rebelde, ativista, cantava sobre a mensagem de amor e anti-guerra que soprava no vento. Era “cool”, usava óculos escuros e cultivava longos cabelos cacheados. Os Beatles haviam, até aquele momento, emplacado hits como I Want to Hold Your Hand, She Loves You e Love Me Do no topo das paradas norte-americanas, canções que hoje podem ser vistas como ingênuas, apolíticas e, até mesmo, alienadas. O destino da música pop, no entanto, mudou para sempre quando Bob Dylan passou um cigarro de maconha para os comportados jovens de Liverpool. Se Dylan, influenciado pelo encontro ou não, foi posteriormente responsável pela eletrificação da folk music, escandalizando mais uma vez a sociedade ao empunhar uma guitarra elétrica, os Beatles seriam profundamente impactados na composição lírica, melódica e instrumental de seu repertório artístico.

A capa já mostra os olhares distantes e o semblante altivo dos outrora alegres e ingênuos integrantes da banda. A manifestação inicial dessa metamorfose musical pode ser observada na divertida Drive My Car, que, como produto da genialidade musical do baixista Paul McCartney, mistura uma sofisticada e pegajosa melodia pop a um senso apurado de humor em “beep, beep, beep, yeah”. McCartney ainda viria a contribuir ativamente com a belíssima Michelle, uma doce e envolvente balada de amor que mescla versos de súplica em francês e inglês, e com I’m Looking Through You, uma das clássicas canções de briga que ele tinha o costume de escrever após discussões com a então namorada Jane Asher. You Won’t See Me também se enquadra nessa categoria. Entretanto, apesar de todo o esforço e qualidade, a consistente contribuição de McCartney no álbum serve apenas de coadjuvante para o estonteante e genial protagonismo de John Lennon. Lennon rouba o show. Na verdade, Lennon é quem faz o show.

O mais problemático e impulsivo dos quatro, o guitarrista seria atormentado durante toda a vida por dolorosos autoquestionamentos filosóficos, incluindo uma potente percepção niilista da sociedade e da vida, e por grandes traumas pessoais, principalmente a morte de sua mãe. Lennon sempre parece ter sido o “peixe fora d’água” na antiga dinâmica de repertório romântico e inocente da banda, algo que fluía com naturalidade para seu parceiro McCartney. O encontro com Dylan representa talvez o Grito do Ipiranga de Lennon, o momento derradeiro em que um prisioneiro se desgarra de suas correntes psicológicas e brada sua verdadeira essência ao infinito. Isso se evidencia em Nowhere Man, canção de conteúdo inédito até então, em que o eu lírico se olha no espelho e questiona sua direção e significado. Girl, por sua vez, rompe com a inocência ao abordar explicitamente a sexualidade. The Word antecipa a mensagem de amor e paz que se tornaria central nos protestos hippies. Já In My Life, uma das mais belas composições da história da música pop, traz Lennon refletindo sobre a vida, a morte, os amigos e os amores, acompanhado por um espetacular solo de piano de George Martin.

George Harrison também brilhou, contribuindo com Think for Yourself, de forte cunho político, e If I Needed Someone, influenciada por The Byrds e The Beach Boys. Mas sua maior marca foi a inclusão da cítara em Norwegian Wood, canção melancólica de Lennon sobre um caso amoroso, que tornou o uso do instrumento uma tendência na música pop e deu início à relação de Harrison com a cultura indiana.

Rubber Soul foi um ponto de virada na carreira dos Beatles. Seu conteúdo lírico mais profundo e suas inovações sonoras abriram caminho para Revolver, Sgt. Pepper’s e tudo o que viria depois. Seis décadas depois, seu impacto continua a ecoar, reafirmando o álbum como uma das maiores obras da música popular.

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