AUTOR: Pedro Branco | Redação
Adianto, a fim de alertar o caro amigo que há de ler esta resenha, seja por engano ou por determinação própria, que não se trata de um resumo uniforme e fidedigno dos acontecimentos narrados no livro. É, portanto — e não haveria de ser mais do que isso — um simples relato pessoal: de que forma O Idiota, de Fiódor Dostoiévski, me impactou.
Livros existem aos montes. Desde os primórdios da sociedade humana, a literatura se desenvolveu com a descoberta do papel, a revolução da prensa de Gutenberg e outros eventos de suma importância. Sempre foi uma fonte inexorável de conhecimento e entretenimento. No entanto, há uma categoria especial e única reservada aos livros que marcam a experiência, a consciência e a sensibilidade do indivíduo. Em outras palavras, aqueles que arrebatam a alma, envolvem e revolucionam.
Não seria exagero conferir a O Idiota tal posição. Pelo contrário, é mais do que justo. Dostoiévski, considerado o precursor do existencialismo na literatura, é sublime ao descrever e questionar, de maneira paradoxal, a relação entre a moralidade humana e a corrupção social. Para isso, personifica no Príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin a bondade, a humildade e a pureza máximas possíveis a uma criatura terrena do Deus cristão, sem ignorar, no entanto, o inevitável flerte entre essas qualidades e uma devastadora ingenuidade.
Na prática, o Príncipe — constantemente chamado de “idiota” — é uma figura comparável a Jesus Cristo em bondade e simplicidade, e a Dom Quixote em sua ingenuidade e idealismo. Portador de uma doença congênita que hoje se aproximaria da epilepsia, ele é inserido em uma sociedade excessivamente corrupta, imoral e cínica. Por isso, não escapa de comentários ruidosos e insinuações sobre seu estado mental, sendo frequentemente chamado de louco e infantil.
Naturalmente, o caráter excessivamente bondoso do Príncipe leva à sua ruína completa. Ele perdoa todos os seus detratores, como reza o Pai Nosso. Permite-se ser ofendido, vilipendiado, difamado e, como um bom cristão, nada faz além de dar a outra face. Ama Nastácia Filíppovna — personagem central da trama — por pura e simples compaixão, mesmo sendo ela uma mulher de passado turbulento, resultado do tratamento vil que recebeu de seu protetor. Assim, sabota a si mesmo, preterindo a bela e adorável herdeira Aglaia Epántchina, que o amava genuinamente. O desfecho não poderia ser mais simbólico: ele enfrenta integralmente as consequências de suas escolhas, reflexo do livre-arbítrio humano.
Dostoiévski nos propõe uma reflexão profunda: quantos de nós já não amamos por compaixão? E, na esteira desse questionamento, quantos não sofreram severamente as repercussões de seus próprios atos? Mas, acima de tudo, a indagação mais sincera que a obra sugere é: quantos de nós já fomos tratados como idiotas por atos de simplicidade, bondade e humildade?
O romance, como não poderia deixar de ser, é trágico. A história escancara as feridas abertas de uma sociedade em plena decadência moral. A pena para o homem bom, puro e ingênuo é, inevitavelmente, o sanatório. A relação entre bondade e loucura é simbiótica. O desfecho triste e arrasador reafirma o dilema fundamental da narrativa: conservar uma personalidade cristã inabalável ou render-se à perfídia social deliberada?
A narrativa é magistral ao construir a relação paradoxal entre os extremos da conduta humana. Além disso, é fascinante como Dostoiévski alterna entre conclusões niilistas e existencialistas, provocando uma mudança constante no juízo do leitor ao longo da leitura. Nada que se pensa durante a obra é definitivo, pois ela tem o dom de transformar percepções a cada capítulo.
Dostoiévski, um notável cristão russófilo, é soberbo ao personificar seus sentimentos mais profundos e convicções pessoais. Não à toa, O Idiota foi, segundo o próprio autor, sua magnum opus. E, indubitavelmente, é.
Como mencionei, o Príncipe é constantemente associado à figura de uma criança por seu caráter absolutamente bom e puro. No entanto, isso de forma alguma deve ser encarado como desprezo. O que foi vedado aos sábios e aos fortes foi revelado às crianças. Hei de passar minha vida, portanto, perseguindo para mim a pureza dos inocentes e a bondade dos idiotas.






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