AUTOR: Pedro Branco | Redação
Nos últimos dias, o Brasil celebrou surpreendentes triunfos de seus clubes contra times europeus na Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Surpreendente não porque o futebol brasileiro seja, de alguma forma, inferior ao europeu — somos, afinal, pentacampeões do mundo. A surpresa vem da percepção, cultivada ao longo do tempo, de que o melhor futebol hoje é praticado no velho continente. É sobre essa ideia que pretendo discorrer.
O futebol brasileiro é cinco vezes campeão mundial, um feito ainda inalcançado por qualquer outra seleção. Isso aconteceu porque, desde o primeiro título em 1958 até os dois gols de Ronaldo contra a Alemanha em 2002, afirmamos nossa identidade única, nosso jeito singular de jogar e fazer futebol.
O Botafogo, diante do poderoso Paris Saint-Germain, atual campeão europeu, deu uma aula de organização defensiva e competitividade, mesmo sem dominar a posse de bola nos 90 minutos. Ora, é natural que seja assim: o PSG é, talvez, o melhor time do planeta na atualidade. Todo o mérito da grande vitória ao Botafogo, que fez por merecer.
O Flamengo, por sua vez, quase não tomou conhecimento do Chelsea, um dos gigantes da Inglaterra. Apesar de um gol precoce dos ingleses, fruto de uma falha defensiva, o time carioca não se intimidou e logo assumiu o controle do jogo. O placar de 3×1 talvez tenha sido generoso ao Chelsea, que pouco fez para marcar, enquanto o Flamengo mereceu seus três gols.
Esses triunfos mostram que o futebol brasileiro segue vivo e pulsante, mas, curiosamente, o torcedor foi levado a questionar sua autoestima futebolística por um bom tempo. Existem fatores que, de fato, contribuem para uma diferença técnica entre os países. O futebol brasileiro opera com o real, uma moeda menos valorizada que o euro ou a libra. Os jogos no Brasil enfrentam temperaturas exaustivas, longas viagens e um calendário inchado.
Ainda assim, nunca deixamos de ser o futebol mais criativo e artístico do mundo. Mesmo que, momentaneamente, observemos um processo lento de erosão do DNA brasileiro, em favor de um modelo que lembra uma linha de montagem fordista do hemisfério norte.
Os clubes brasileiros foram brutalmente enfraquecidos pela desvalorização do real frente ao dólar, ao euro e à libra, o que dificultou a permanência de grandes craques no país. Além disso, novas legislações nacionais e internacionais sobre o passe de atletas facilitaram a saída de jogadores sem contrato. Em resumo, não se produzem mais Zicos, Roberto Dinamites, Rogério Cenis ou Garrinchas. Formam-se diamantes brutos, direcionados para uma lapidação estritamente europeia, que suprime o DNA brasileiro e transforma craques em jogadores europeus: frios, calculistas, metódicos, sem improvisação.
O futebol brasileiro nunca deixou de ser o melhor do mundo. Na realidade, o Brasil ainda forma os melhores jogadores. Há algo de especial na nossa água. O problema está em formar talentos com o único objetivo de vendê-los ao futebol europeu. Com esse propósito, nossas categorias de base foram inundadas por conceitos que contrariam nosso estilo. Não se valoriza mais o drible, o improviso, o balanço ou a pedalada — marcas da nossa essência. O atleta “perfeito” deve evitar o risco a todo custo: em um 1×1, o passe é sempre a melhor opção. Não foi assim que conquistamos o que conquistamos.
Precisamos voltar às nossas raízes. Não é necessário aprender com Cruyff ou Guardiola se temos Pelé e Garrincha. Isso não é uma crítica à capacidade do futebol europeu de trazer ideias novas e profissionalismo. Mas não podemos esquecer quem somos. Que Botafogo, Flamengo, Palmeiras, Fluminense e todos os clubes brasileiros continuem a reacender no torcedor a chama do futebol que só o Brasil sabe jogar: com enfrentamento, alegria, irreverência e, acima de tudo, brasilidade.





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